Taiwan Travelogue e Marjane Satrapi

 

Algumas semanas atrás, acabei dando de cara com uma discussão no Twitter sobre o livro “Taiwan Travelogue”, da autora taiwanesa Yang Shuang-zi. Como esperado de todas as discussões daquele esgoto, tudo era muito raso e todo mundo queria sair como patrono da superioridade moral que derrotaria o fascismo. Não vou entrar em muitos detalhes sobre o livro, que acabei terminando no fim de maio, mas ele funciona como uma autobiografia fictícia de uma autora japonesa que viaja até a Taiwan ocupada pelo império japonês, no ano de 1938. Ao longo da história somos apresentados à construção da amizade e quem sabe algo mais? com a sua intérprete, nativa de Taiwan.

 

Capa do livro "Taiwan Travelogue"

Eu gosto muito de obras que exploram esses contextos que são marcados pela violência estrutural e direta e como as pessoas comuns vivem seu cotidiano, sobrevivendo (ou não) com a opressão. A “discussão” no Twitter era como esse livro seria uma romantização do grande Império do Japão e seu papel para espalhar a civilização ao longo da Ásia. E como já era de se esperar, quem jogava essa acusação acabava admitindo em meio a threads que não tinha lido nem leria o livro, nem que fosse para afirmar que “sim,isso passa pano pro Japão colonizador sim, que porcaria”.

Essa rejeição preguiçosa acaba virando um ataque a qualquer coisa que esse pessoal acha que não acata 100% aos seus gostos, sua posição política, ou seja lá o que for que afirme sua identidade. É uma falta de curiosidade e disposição para saber sobre o que aquilo se trata que a pessoa se coloca em uma posição de inação, no caso menos danoso ou cria um ódio infundado contra a obra (e de quem gosta dela) utilizando de argumentos morais medíocres no pior dos casos. E não estou falando para engajarmos com trabalhos de pessoas que cometeram crimes ou que apoiam abertamente causas que são danosas a pessoas reais (foco no pessoas reais), mas sim sobre como tem gente que olha com desprezo qualquer trabalho diferente por entendê-lo como um ataque a sua identidade, chegando mesmo a pedir censura ou destruição daquele material. Para além do desconforto, me parece que essas pessoas não têm disposição nem para ler/assistir/jogar algo que leve a uma conclusão que não seja positiva. Não existe espaço para engajar com uma obra e pensar por que aquilo é ruim, seja por questões de construção, estrutura ou seja só por ser medíocre mesmo.

Alguns dias depois da discussão que apareceu para mim sobre o livro, foi anunciado o falecimento da artista iraniana Marjane Satrapi. No seu quadrinho Persépolis, a autora conta sua história como uma jovem crescida em uma família politicamente consciente que sofre com a chegada do regime fundamentalista no Irã em 1979 e que se mantém no poder no país até a atualidade. 

 

Capa do quadrinho Persépolis

Acho interessante a experiência de ler Persépolis justamente porque a Marjane mostra a realidade atravessada por duas vivências historicamente inferiores dentro da política internacional: A de uma mulher e de uma pessoa do chamado Oriente Médio. Especialmente após 1979, o Irã se tornou a “menina dos olhos” dos Estados Unidos, ocupando a posição de um inimigo absoluto a ser destruído. Essa construção seguiu nos anos após 1979, no período da Guerra ao Terror, (quando Irã foi jogado no mesmo balaio que Iraque e Coreia do Norte como os patrocinadores do terrorismo) seguindo até a atualidade. Logo, o quadrinho da autora apresenta uma novidade no entendimento do chamado Ocidente sobre a realidade e vida de pessoas iranianas.

Em Persépolis podemos ver a vasta gama de interesses existentes no país antes da ascensão do aiatolá ao poder a partir de uma retórica religiosa conservadora mediante a queda de um governo considerado estratégico pelos Estados Unidos. Marjane não se apresenta como alguém com todas as respostas, mas uma pessoa que sofre devido ao regime tanto pelo posicionamento de sua família como também por ser mulher. Mas, ela não se coloca apenas como vítima, fazendo questão de se mostrar como agente de sua história. Vemos as nuances da política a nível internacional quando ela, estudando na França, é colocada dentro da caixinha de uma simples vítima, tendo qualquer capacidade de agência roubada por pessoas fora daquela realidade. Algo similar acontece no relato da autora Azar Nafisi no livro “Lendo Lolita em Teerã”. As duas mulheres têm visões particulares sobre a realidade do Irã, ao mesmo tempo em que nos apresentam essas mudanças como agentes participantes e conscientes, não apenas como vítimas.

Não sei por que ainda me surpreendi um pouco quando, após a morte da Marjane Satrapi, surgiram dezenas de comentários críticos a ela devido a seu suposto posicionamento imperialista ou falta de apoio a outras causas. O interesse elevado na política internacional dos últimos anos trouxe à tona uma mentalidade de que a realidade é um filme da Marvel em que temos vilões e mocinhos bem estabelecidos. Se você critica o Irã, você apoia os Estados Unidos, se você critica os Estados Unidos, você apoia a Rússia e assim por diante.

Esse texto nem é exatamente para defender a Marjane Satrapi, afinal eu não a conheço. Eu li um quadrinho dela, gostei e espero ler Bordados no futuro se possível. Mas eu detesto críticas preguiçosas disfarçadas de cruzada moral. Se uma pessoa diz que não gosta dela porque acha o livro dela uma porcaria, por causa das vibes, da arte, seja o que for, para mim é muito mais honesto e justo do que falar “é que ela é aliada dos Estados Unidos por criticar ao Irã” ou “esse livro é imperialista por falar de obra x” ou “esse filme passa pano pra essas pessoas por falar delas”. Parece apenas uma tentativa pífia de demonstrar inteligência. Ao continuar lendo o Taiwan Travelogue, por exemplo, descobrimos que o próprio livro critica o imperialismo japonês e, indo atrás de comentários públicos da Marjane Satrapi, encontramos posicionamentos dela condenando a proibição de véus imposta pelo governo francês, em uma clara política de xenofobia e racismo.

A autora de Taiwan Travelogue não está o tempo todo falando “Japão ruim fascista” para que o leitor concorde, logo a obra é uma peça de propaganda. O fato dela ter escrito uma japonesa em 1938 já é algo digno de condenação, aparentemente. De maneira similar, a Marjane Satrapi não é uma mulher iraniana “válida” porque condenou o regime islâmico, porque era de uma família “burguesa de esquerda”, etc. Obviamente são dois casos diferentes. Um é um livro de ficção, outra é uma pessoa real que faleceu a pouco tempo. Mas essas conclusões sobre tópicos diferentes parece ser um sintoma da morte total da nuance.  Não dá para falar “acho que esse livro podia ter feito isso e aquilo melhor, mas não é de todo mal”, o livro tem que ser perfeito do início ao fim. Da mesma forma, não dá para uma figura pública ter um comportamento “imperfeito”, não dá para a pessoa errar (e aqui escrevo imperfeito, o que espero que deixe bem claro que não estou me referindo a passar pano para comportamento criminoso e similares).

E mesmo no caso de material de ficção no geral, existe agora essa preguiça generalizada de engajar sem ter certeza de que a obra vai ser totalmente adequada a seus gostos, não vai te desafiar ou nem te desagradar um pouco.  Talvez por termos tanta opção de entretenimento hoje em dia, tem esse pessoal que age como se fosse morrer caso “perdesse tempo” vendo /lendo /jogando algo que não sabe 100% se vai ser dos seus gostos.

Eu não quero ter coisas regurgitadas a lá ChatGPT feitas “sob medidas pra mim”. Eu tenho capacidade de descobrir as coisas, de conversar com meus amigos e ouvir as recomendações deles, de explorar uma obra que acho que não faria meu estilo e adorar e ficar triste ao ver que algo que achei que seria legal é na verdade uma porcaria. Quero continuar pensando por que eu gosto das coisas, porque eu detesto, porque merece críticas ou elogios.

Cada vez mais eu me torno uma pessoa com menos tolerância em relação a certos espaços de fandom porque parece que estou vendo o argumento do Hiroki Azuma no “Otaku: Database Animals” sobre personagens, histórias e suas características sendo catalogados. Acho que agora é pior porque disfarçam com uma roupagem de crítica social para considerar que aquele trabalho merece ou não existir. Os personagens não podem agir de forma errada, não podem amadurecer, eles apenas têm que ter as características que o fã gosta sem nunca mudar porque acima de tudo ele é um produto e o fã um consumidor. Se quem fez aquele trabalho fizer um personagem LGBTQ, uma mulher, alguém não branco agir de forma condenável, claramente é um sinal de que essa pessoa é um conservador miserável que deve morrer. 

Não existe espaço para nuance, para crítica, para discutir e entender que aquela obra ótima tem defeitos, que aquela porcaria colossal é divertida de acompanhar e que elas são, acima de tudo, resultados do lugar em que foram pensadas/criadas e de tudo que veio antes. Não existe espaço para falar que gostar de um BL não é a mesma coisa que passar pano para a misoginia, que jogar um eroge não significa apoiar a exploração feminina e que gostar de personagens femininas “ruins” não é o mesmo que minar os direitos de minorias na vida real. Mesmo se a gente falar que isso tudo já acontece séculos antes dessas formas de entretenimento existirem, ainda assim vamos ter que ler que tudo isso está ajudando a destruir os direitos sociais ao redor do mundo.

Cada vez mais espaços são fechados à medida que a nuance e capacidade crítica é rejeitada. Mas creio que para algumas pessoas esteja tudo bem que isso aconteça, pois sempre teremos o ativismo de consumo. Conviver com pessoas diferentes, entender contradições da realidade não parece tão importante à medida em que damos cinco estrelas pra obras que demonstram nosso posicionamento social, nossa identidade e termos certeza de ameaçar artistas em redes sociais caso eles não façam aquilo que seja considerado correto. É assim que se derrota o fascismo, aparentemente.




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